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Arquivos mensais: Junho 2008

>Aquele amor

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Fotografia de DDiArte

Ela pertence à espécie de mulheres que possuem um só amor em toda a sua vida. Ou amam de verdade apenas uma vez. Seria espécie de mulheres ou a maioria assim o é, mesmo sem o saber?

Também há homens de eterno amor, embora o machismo e as deformações de sua cultura e comportamento nem sempre os convença de tal. Ou não convença a maioria. Ou será que o fato de serem colocadores de semente por determinismo biológico os leva a não prestar a devida atenção à sua destinação para o amor?

No meio da conversa ela diz, de repente, que só gostou de verdade de um homem e eis que vai buscar lá entre papéis amassados, daqueles que esturricam o couro das carteiras, não um mas três retratos dele, que espalha, qual cartas de baralho, sobre a mesa do restaurante. E fala dele com a mistura de ternura e tristeza que assaltam as mulheres que não lograram viver com o seu amor, casar-se com ele, ter seus filhos, viver em função dele e dela, unidos, pois esta é a verdadeira vontade e destinação da mulher: viver ao lado do verdadeiro amor.

Sim, elas vivem de modo proibido se necessário, casam-se com outro, têm filhos, os amam fundamente, mas a verdade de seu ser é a do amor verdadeiro, até porque mulher vive para amar e por amor, o resto se ajeita. Podem até deixar seu amor dormitar por anos e parecer serenado. Volta, porém a qualquer apelo ou menção do nome dele, encontro fortuito na rua com um conhecido dos tempos do namoro ou da relação.

Como são comoventes e lindas na sua integralidade bíblica as mulheres quando expressam para os demais ou para si mesmas, o amor de suas vidas ou quando consultam, escondido, os retratos guardados, recortes, flores secas, a memória úmida das restantes lembranças em momentos de silêncio e solidão!

Abençoados sejam, porque são, os homens e as mulheres que na passagem por esta vida receberam um dia de alguém, ou deram, um amor único, original e definitivo. Abençoados sejam e para todo o sempre. Como o amor que existe apesar de todas as ternas e dolorosas circunstâncias que não impedem a sua verdade mas em muitos casos esmagam a sua plena realização.

 
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Publicado por em Junho 19, 2008 em Artur da Távola

 

A Última Lágrima

A chama arde.
O coração bate.
A cera escorre.
A lágrima desce.
O calor morre,
E a vida de esperança carece.
A cera evapora.
O suspiro vai embora.
Outra alma padece,
E para o além ela corre.
O calor se expande,
Esquenta a face,
Molhada diante
Da mais dura perda.
E a vela se esvai.
A última lágrima cai.
Todos os seus sentimentos,
Todos os seus pensamentos,
Tudo se mistura,
Num momento de tortura
Que explode e perdura.
Os olhos reluzem.
Os gestos traduzem
Os segredos de um amor
Convertido em dor.
E o choro irrompe,
Gritos surdos de sofrimento.
E uma voz interrompe
A solidão do momento.
Um suspiro repentino,
Como se toda a vida se esvaísse.
Um sussurro inaudível,
Mas que revelaria para quem o ouvisse
O amor escondido,
Não correspondido.
E a dor se torna terrível,
Impossível.
E a última cera escorre,
E a última lágrima desce,
E o último sangue jorra,
E tudo que era vivo morre,
E tudo que era feliz entristece,
E todo o fogo vai embora,
E só há escuridão.
Afoga-se em sua própria solidão,
Fica apenas a memória
Da tortura e da decepção
Causadas por um amor mútuo,
Não correspondido
Por ambos os lados.
Viveu escondido
E morre enterrado
Na mais profunda escuridão

 
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Publicado por em Junho 18, 2008 em Jannerson Xavier

 

Labirinto ou não foi nada

Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

 
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Publicado por em Junho 17, 2008 em David Mourão-Ferreira, Poesia

 

>Às vezes…

>

Fotografia de Paulo César

Às vezes é preciso aprender a perder, a ouvir e não responder, a falar sem nada dizer, a esconder o que mais queremos mostrar, dar sem receber, sem cobrar, sem reclamar. Às vezes, é preciso partir antes do tempo, dizer aquilo que mais se teme dizer, arrumar a casa e a cabeça, limpar a alma. Às vezes, mais vale desistir do que insistir, esquecer do que querer. No ar ficará para sempre a dúvida se fizemos bem, mas pelo menos temos a paz de ter feito aquilo que devia ser feito, somos outra vez donos da nossa vida. Às vezes, é preciso abrir a janela e jogar tudo borda fora, queimar cartas e fotografias, esquecer a voz e o cheiro, as mãos e a cor da pele, apagar a memória sem medo de a perder para sempre, esquecer tudo, cada momento, cada minuto, cada passo e cada palavra, cada promessa e cada desilusão, atirar com tudo para dentro de uma gaveta e deitar fora a chave. Porque quem parte é quem sabe para onde vai, quem escolhe o seu caminho, mesmo que não haja caminho, porque o caminho se faz a andar. O sol, o vento o céu e o cheiro do mar são os nossos guias, a única companhia, a certeza que fizemos bem e que não podia ser de outra maneira. Quem fica, fica a ver, a pensar, a meditar, a lembrar. Até se conformar e um dia então, esquecer.

As Crónicas da Margarida,(texto com supressões)
 
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Publicado por em Junho 16, 2008 em Margarida Rebelo Pinto

 

>Caligrafia na pele

>

Fotografia de Karina Bertoncini

Os dedos com que me tocaste
Persistem sob a pele, onde a memória os move.

 
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Publicado por em Junho 15, 2008 em Luis Miguel Nava

 

Silêncios

 

Fotografia de Graça Loureiro
Omitir, mentir e silenciar são atitudes comportamentais que têm que ser analisadas em separado e com conhecimento do respectivo contexto.
Se omites, silencias-te e obviamente estás a mentir!… Parece-me uma ilação prematuramente radical e assenta tão-só numa suposição.
Nem sempre quem omite ou se cala, está a mentir!… mas, como não sou apologista de cogitações sobre o que ainda é uma suspeita, opto pelo diálogo… obrigatoriamente, “doa a quem doer”!…
Abomino silêncios deliberados e manipuladores (há muito disto hoje em dia, lamentavelmente!…) e defendo, unicamente, o necessário ao reajuste do nosso eu!… muito haveria a falar sobre silêncios!…
 
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Publicado por em Junho 13, 2008 em Carla

 

Reflexo do outro eu…

Fotografia de Graça Loureiro

Em frente ao Vert-Galant, eu dominava a ilha. Sentia subir em mim um vasto sentimento de força, e, como direi?, de plenitude, que me dilatava o coração. Ergui a cabeça e ia acender um cigarro, o cigarro da satisfação, quando, no mesmo momento, estalou um riso atrás de mim. Surpreendido, voltei-me bruscamente: não havia ninguém. Virei-me para a ilha e de novo ouvi o riso pelas minhas costas, um pouco mais distante… Fiquei ali, imóvel. O riso diminuía, mas eu ouvia-o ainda distintamente por detrás de mim, vindo de parte nenhuma… este riso nada tinha de misterioso; era um riso bom, natural, quase amigável, que repunha as coisas no seu lugar… em casa, dirigi-me à casa de banho para beber um copo de água. A minha imagem sorria ao espelho, mas pareceu-me que o meu sorriso era dúbio… afinal, quem sou eu?”

A certa altura, um dia, na hora menos pensada, ouvimos o “grito”, aquele que vem de dentro de nós, aquele que nos chama à razão…
 
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Publicado por em Junho 11, 2008 em Albert Camus

 
 
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