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Arquivos mensais: Agosto 2010

Laranjas para deuses

“Há uns anos dois amigos meus que pareciam ter pouco a ver um com o outro, casaram-se. Quando perguntei à irmã dela a razão de tão repentina e inesperada união, respondeu-me: é simples, ele tem 40 pares de sapatos. Ela também. Não achas que é uma boa razão? Demorei quase dez anos a achar que sim.

A alquimia que mantém um casal unido sempre foi e há de ser um dos mais belos mistérios da natureza. Genética, educação, princípios morais e uma série de factores aleatórios como a sorte e a cor dos olhos podem ajudar, mas há sempre qualquer coisa para lá do racional, do dizível, do explicável. Uma espécie de magia que mantém a frescura e a vivacidade; uma forma de arte para transformar a rotina num peso leve. E claro, muita sabedoria para saber como lidar com os piores momentos com a displicência equivalente ao empenho que se põe nos melhores. E além disso, muito amor, porque viver com alguém não é algo que se suporte ou se aguente, não há meio termo; ou é bom, ou é óptimo ou então é um inferno, mesmo que o inferno seja uma paz podre sem ondas, estagnada e a ganhar verdete de cinco em cinco minutos.
A teoria da cara-metade desde sempre perseguiu a humanidade. Os árabes imaginaram Alá a cortar laranjas e espalhá-las pela terra ao acaso, esperando que o destino a pusesse a rolar na direcção uma da outra. Mas esta teoria é redutora, porque uma laranja pode encaixar com várias metades, pelo menos metaforicamente, já que nunca fiz a experiência com os citados citrinos. Na década de 90 que foi prolixa em divagações místicas apareceram livros sobre a alma gémea, uma espécie de guia emocional para os mais carentes, uma mistura de paliativo com ansiolítico de efeito estonteante e entorpecedor para orientar os sós e abandonados. Vivemos numa sociedade onde há remédio e soluções “à la carte” para tudo, amor incluído.
Ainda voltado ao par de sapatos, o que faz com que um homem e uma mulher fiquem juntos para sempre?
Com ou sem a ajuda de Deus ou de Alá há muitos que ainda o conseguem. E falo dos que estão juntos porque querem, os que estão juntos por circunstâncias extrínsecas à essência da questão não entram neste campeonato. Como o Pedro e a Luísa que são os dois músicos e vivem numa casa onde o piano e o violoncelo dormem na mesma sala mas nunca entram em competição nem dentro nem fora de casa. Como O Miguel e a Lúcia que sempre respeitaram os amigos um do outro. Como o Paulo e a Verónica que aceitaram viver dois anos separados para que ela pudesse dar um salto qualitativo na carreira. Confiança, conforto e cumplicidade parecem ser palavras-chave. Todos falaram em tolerância, paciência, calma e segurança. Quase todos falaram de paixão, todos mencionaram harmonia, estímulo, entendimento e esforço. Alguém acrescentou: não é uma coisa que se procure, simplesmente encontra-se. O trabalho está em não se deixar perder. Laranjas? Isso é para os deuses.”

Margarida Rebelo Pinto

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Publicado por em Agosto 28, 2010 em Crónicas

 

Citação #3

«Se quiséssemos ser apenas felizes, isso não seria difícil. Mas como queremos ficar mais felizes do que os outros, é difícil, porque achamos os outros mais felizes do que realmente são.»

Montesquieu

 
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Publicado por em Agosto 25, 2010 em Citações

 

(Des)Fragmento #1

Nem os dias longos me separam da tua imagem.
… Então, desejo
o silêncio para que dele possas renascer, …

Nuno Júdice

 
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Publicado por em Agosto 21, 2010 em (Des)Fragmento, Nuno Júdice

 

Fragmento Literário #3

“Toco a tua boca.
Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.”

Julio Cortázar, O Jogo do Mundo

 

Fragmento Literário #2

“Remorsos, sim, é verdade, às vezes tenho remorsos. Vejo-me em sonhos como um pássaro negro crepuscular, alimentando-se nas sombras, nos desperdícios, nos destroços, das vidas alheias. Mas afinal, o que se leva da vida, senão os remorsos? Remorsos do que poderia ter sido e não foi, e do que se perdeu depois de ter sido. Remorsos do que devia ter sido dito e feito, e não o foi a tempo, ou do que foi demasiadamente dito e feito. Remorsos destes eternos desencontros, desta sensação de que nada existe no seu tempo certo, de chegar sempre tarde ou partir cedo demais. Porque será que a seguir à noite vem sempre a manhã e de manhã pesa sempre nos olhos e na alma o que se fez e desfez de noite – um corpo húmido deixado num lençol de seda e o ladrão furtivo desse corpo abandonando o quarto que não é seu, em direcção ao vazio de tudo o que lhe pertence inutilmente.”

Não Te Deixarei Morrer, David Crockett, Miguel Sousa Tavares
(Texto com supressões)

 

Adeus

“Despedi-me de ti para sempre, ainda que vá estar contigo esta semana, e na próxima, e nas que se seguirem.

Despedi-me de ti sem uma palavra, pelo contrário, trocámos conversa de circunstância, ou melhor, tu deste o tom, como sempre fazes, a comandar tudo e todos.

Despedi-me de ti e, de repente, foi como se a teu lado estivesse a outra que um dia fui, coisa pequena com onze anos, aquela a quem roubaste a infância, a juventude e tudo o mais.

Não estiveste sozinha na tarefa, é bem verdade. E nada teria acontecido se eu tivesse tido a inteligência, a força, o que queiras chamar, de não ter passado toda a minha vida tentando que me amasses, tu e os outros. Que me aceitasses, tentando descortinar nos teus olhos o amor que me era devido.

Enganei-me a mim estes anos todos, e agora que te digo adeus rezo para que o peso da tristeza, este buraco cravado no meu coração, desapareça de vez.
Já vivi mais de metade da minha vida em busca do que não existia, como uma cadela sem dono, só com três pernas, e que ninguém quer.

Digo em silêncio que tudo vai correr bem, tudo vai passar. Mas a dor é igual à que sempre foi e nunca me habituarei à desilusão, à constatação que, afinal, existem coisas que não são sagradas, a vida pode, pura e simplesmente, ser-nos cruel sem razão.

Talvez um dia eu te consiga desculpar, ou melhor, compreender. Mas por essa altura já deverei ter perdido a noção do real, porque, quando chegar ao fim da vida, a percepção do que realmente aconteceu e do que sonhei deverá ser tão difusa como as lágrimas que agora choro, pelos cantos da casa, pelos quantos da vida.”

Luísa Castel-Branco
in Destak 19|07|2010

 
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Publicado por em Agosto 18, 2010 em Crónicas

 

Citação #2

«Sermos o que somos e tornar-nos o que somos capazes de ser é a única finalidade da vida.»

Robert Stevenson

 
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Publicado por em Agosto 16, 2010 em Citações

 
 
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