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Arquivo da Categoria: Miguel Sousa Tavares

Fragmento Literário #2

“Remorsos, sim, é verdade, às vezes tenho remorsos. Vejo-me em sonhos como um pássaro negro crepuscular, alimentando-se nas sombras, nos desperdícios, nos destroços, das vidas alheias. Mas afinal, o que se leva da vida, senão os remorsos? Remorsos do que poderia ter sido e não foi, e do que se perdeu depois de ter sido. Remorsos do que devia ter sido dito e feito, e não o foi a tempo, ou do que foi demasiadamente dito e feito. Remorsos destes eternos desencontros, desta sensação de que nada existe no seu tempo certo, de chegar sempre tarde ou partir cedo demais. Porque será que a seguir à noite vem sempre a manhã e de manhã pesa sempre nos olhos e na alma o que se fez e desfez de noite – um corpo húmido deixado num lençol de seda e o ladrão furtivo desse corpo abandonando o quarto que não é seu, em direcção ao vazio de tudo o que lhe pertence inutilmente.”

Não Te Deixarei Morrer, David Crockett, Miguel Sousa Tavares
(Texto com supressões)

 

>Ilusão

>

… E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.

 
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Publicado por em Fevereiro 19, 2007 em Miguel Sousa Tavares

 
 
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