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Arquivo da Categoria: João Morgado

As meninas

«…Afonso sorri e conta o caso do Alvarinho. Um solteirão, que vivia só, sem cuidados nem desvelos. Não por falta de dinheiro mas de motivação. Ainda que de uma forma respeitosa, a sua figura era um dá que rir pela cidade. Além do mais, os homens – aqueles que coçam as intimidades no café – não lhe perdoavam a sua vida celibatária. Gozavam com a sua eventual virgindade, porque homem que é homem tem de molhar o pincel. O Alvarinho respondia com um sorriso amaneirado, encolhia os ombros e mudava de poiso como um pardal de rua.

Uma noite apareceu de barba feita, cabelinho cortado com uma pontinha de gel. E cheiroso. Só destoava o casaquito do século passado já a clamar por reforma. Foi a festa no Café Central. Alvarinho, de onde vem tanta elegância? Perguntaram. Fui às meninas, respondeu de peito cheio. Saiu logo uma rodada por conta da casa. Festejaram. Finalmente temos homem. Grande Alvarinho…!

Um dia e outro dia. O Alvarinho aparecia sempre bem penteado e cheiroso. Com tanto zelo, foi-se compondo a figura. Comprou um casaco novo por recomendação das meninas. E uma gravata da cor da moda. Uns sapatos novos porque as meninas achavam que os outros estavam consumidos. E até mudou de óculos. As meninas diziam que agora parecia mais jovem. Estás um espanto, diziam. Grande Alvarinho! – gritavam no café. Como vês, nada como molhar o pincel para nascer uma nova alma. Ele sorria e não mudava de poiso. Era um pardal já senhor de si. E todos os dias ele ia às meninas :

Sentava-se na cadeira e elas lavavam-lhe a cabeça com água morna. Deliciava-se com os dedos femininos a passarem pelo seu cabelo. Com o cheiro das suas peles frescas. Com o ondular dos seus seios encostados a ele e reflectidos no espelho. Aparavam-lhe o cabelo e passavam-lhe um after-shave pela cara. Aqueles minutos no cabeleireiro, para ele, valiam por uma carícia, por uma noite de amor. Eram os únicos toques femininos que tinha na vida, mas chegavam para o que eram os seus desejos. Sentia-se acarinhado. Adeus Alvarinho! – diziam elas dando-lhe um beijo. Até amanhã meninas! Até amanhã…»

João Morgado, In: Diário dos Infiéis
Romance, 2010, Oficina do Livro

«Deliciava-se com os dedos femininos a passarem pelo seu cabelo. Com o cheiro das suas peles frescas»


 
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Publicado por em Março 6, 2011 em João Morgado

 

A Alma…

A Alma…

«DINIZ: …Levei-a para minha casa. Tomou um longo e reconfortante banho quente para tirar da pele o intenso cheiro do álcool, do fumo, da solidão. Ninguém sabe a que cheira a solidão mas é um cheiro húmido que se sente à distância. A solidão tem um cheiro, como o medo, como a morte. Dizem que os cães conseguem farejar esse cheiro, por isso se aconchegam no colo das pessoas sós, rosnam quando nos sentem temerosos, uivam quando pressentem a morte.

A Diana vestiu um dos meus pijamas, bebeu um chá ainda fumegante e deitou-se na minha cama. Não lhe fiz qualquer pergunta. Não me deu qualquer resposta. Bastou-me reconhecer um pequeno brilho no olhar ainda mortiço e o esboço de um sorriso.

Ajuda-me a encontrar a alma? – perguntou de novo. A alma não sai de dentro de nós, mas dentro de nós há espaço suficiente para uma alma se perder. Por isso, se acreditares em Deus, reza. Se acreditares em ti, reza também. E como dizem os árabes, sempre que rezares mexe as pernas. Ou seja, reage, reorganiza os teus valores, muda a tua vida. Recorda que se nascer não dependeu de nós, renascer só é possível por vontade própria.Tenho medo, disse ela pegando-me na mão. E quem não tem? – respondi…»

João Morgado, In: Diário dos Infiéis
Romance, 2010, Oficina do Livro

«… A alma não sai de dentro de nós, mas dentro de nós há espaço suficiente para uma alma se perder…»

 
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Publicado por em Fevereiro 28, 2011 em João Morgado

 
 
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