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Arquivo da Categoria: Poesia

O Dom Milagroso de um Grande Amor

Na vida de toda a gente há braçados floridos dessas tolices sem importância. Só a raros eleitos é dado o milagroso dom de um grande amor. Eu teria muita pena que o destino não me trouxesse esse grande amor que foi o meu grande sonho pela vida fora. Devo agradecer ao destino o favor de ter ouvido a minha voz. Pôr finalmente, no meu caminho, a linda alma nova, ardente e carinhosa que é todo o meu ampa­ro, toda a minha riqueza, toda a minha felicidade neste mundo. A morte pode vir quando quiser: trago as mãos cheias de rosas e o coração em festa: posso partir contente.

Florbela Espanca

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Publicado por em Março 7, 2011 em Florbela Espanca

 

Pela rua já serena

Pela rua já serena
Vai a noite
Não sei de que tenho pena,
Nem se é pena isto que tenho…

Pobres dos que vão sentindo
Sem saber do coração!
Ao longe, cantando e rindo,
Um grupo vai sem razão…

E a noite e aquela alegria
E o que medito a sonhar
Formam uma alma vazia
Que paira na orla do ar…

 
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Publicado por em Fevereiro 28, 2011 em Fernando Pessoa, Poesia

 

Sonho. Não sei quem sou.


Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,

Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.

Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,

Coração de ninguém.

 
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Publicado por em Fevereiro 28, 2011 em Fernando Pessoa, Poesia

 

Saudades

“Saudades! Sim… talvez… e porque não?…
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?… Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

 
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Publicado por em Fevereiro 22, 2011 em Florbela Espanca, Poesia

 

Vale a pena sentir…


Vim aqui para não esperar ninguém,
Para ver os outros esperar,
Para ser os outros todos a esperar,
Para ser a esperança de todos os outros.
Trago um grande cansaço de ser tanta coisa.

E de repente impaciento-me de esperar, de existir, de ser,
Vou-me embora brusco…
Regresso à cidade como à liberdade.

Vale a pena sentir para ao menos deixar de sentir.

 
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Publicado por em Agosto 14, 2010 em Álvaro de Campos, Poesia

 

o que tive da vida

Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal,
foi mais, muito mais, do que mereci.

 
 

… qualquer coisa da sombra me espreitava

Olhei o homem e dentro estava ainda
qualquer coisa que da sombra me espreitava.
Era um espelho, como um céu de noite
em que as estrelas são tantas e pesam sobre ti,
e te espiam e, de facto, não te vêem,
ficam no escuro como pedras sem lembranças,
mas estão lá, qual memória da vida,
e tu és um sopro do teu ser longínquo…
Procurei no espelho, e quase lá no fundo
estava outro qualquer que me buscava,
alguém que sofria a sua própria dor,
e eu já não era nada, era só a história
que não se via já atrás do espelho.

Eu era outro e via-me a morrer
como a dormir se vê a sombra.
Põe medo a morte dentro do coração
e foge atrás de um espelho, e lá estou eu.
Vejo a vida e a vontade morre:
façam o que quiserem, mas usai-me!
Chamai-me, chamai-me, não me deixeis dormir,
pois sinto que esqueço a minha história
e me torno o homem do meu morrer…
Amor que vem a mim da luz da lua,
alegria de água que passa entre os vivos!

 
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Publicado por em Agosto 12, 2010 em Franco Loi, Poesia

 
 
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