RSS

Arquivo da Categoria: David Mourão-Ferreira

Labirinto ou não foi nada

Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

 
1 Comentário

Publicado por em Junho 17, 2008 em David Mourão-Ferreira, Poesia

 

Nem todo o corpo é carne…

Nem todo o corpo é carne… Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco…?

E o ventre, inconscientemente como o lodo?…
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor… Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo…

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

Vulto da Primavera em pleno Outono…
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

 
4 Comentários

Publicado por em Abril 27, 2008 em David Mourão-Ferreira, Poesia

 

Cálida…

seios.jpg

O desenho redondo do teu seio
Tornava-te mais cálida, mais nua
Quando eu pensava nele… Imaginei-o,
À beira-mar, de noite, havendo lua…

Talvez a espuma, vindo, conseguisse
Ornar-te o busto de uma renda leve
E a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
Em ti, a branca irmã que nunca teve…

Pelo que no teu colo há de suspenso,
Te supunham as ondas uma delas…
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
Era um convite lúcido às estrelas….

Imaginei-te assim á beira-mar,
Só porque o nosso quarto era tão estreito…
– E, sonolento, deixo-me afogar
No desenho redondo do teu peito…

_________________________________________________________

 
1 Comentário

Publicado por em Novembro 30, 2007 em David Mourão-Ferreira, Poesia

 

Casa

mulherdeitada.jpg

Tentei fugir da mancha mais escura
Que existe no teu corpo e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
Era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
E em quartos interiores o cheiro a fruta
Que veste de frescura a solidão …

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
O que me sai, sem voz, do coração.

 
1 Comentário

Publicado por em Novembro 29, 2007 em David Mourão-Ferreira, Poesia

 
 
%d bloggers like this: